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A Morfologia da Permanência e a Dissolução do Zoneamento Funcionalista

  • 20 de fev.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 5 de mar.

Ensaio Crítico: Fundamentação Teórica e Estrutural do Projeto de Ordenamento e Ocupação Territorial (PO²T)


Diagrama analítico sobre a Morfologia da Permanência e a transição do Uso para a Ocupação no Fragmento Espacial – Pesquisa UTFPR nº 3533.
Fonte: Ribeiro, O. P. (2026). Fragmentos - Observatório Analítico de Intervenções Territoriais

A gestão do território contemporâneo enfrenta o desafio de superar paradigmas herdados do urbanismo modernista que se tornaram obstáculos à vitalidade e à resiliência das cidades no século XXI. O Projeto de Ordenamento e Ocupação Territorial (PO²T) representa uma ruptura epistemológica com o modelo de zoneamento funcionalista tradicional.

Esta transição manifesta-se na exclusão deliberada do termo "Uso" como categoria central de controle urbanístico, substituindo-o por parâmetros de "Ocupação" fundamentados na permanência histórica das tipologias urbanas e na estabilidade da forma física.


1. Crítica ao Zoneamento Funcionalista: A Falácia do Uso Programado

O zoneamento funcionalista, consolidado por documentos como a Carta de Atenas, buscou isolar as funções urbanas (morar, trabalhar, recrear e circular) em setores especializados. No entanto, essa tentativa de "congelar" a atividade humana gerou cidades fragmentadas e incapazes de se adaptar às rápidas mudanças econômicas.

  • Rigidez Normativa: Quando uma lei define um lote como estritamente "comercial", ela ignora que a economia pode migrar para o digital, transformando o zoneamento em um indutor de obsolescência.

  • Volatilidade vs. Perenidade: O Uso é o componente mais volátil da estrutura urbana (ciclo de 1 a 10 anos), enquanto o traçado das ruas e o parcelamento dos lotes apresentam estabilidade secular.

  • Foco no Hardware Urbano: O PO²T propõe que a regulação foque na ocupação física e na interface com o domínio público, permitindo que a "liberdade funcional" ocorra sobre uma "ordem física" robusta.


2. Comparação de Paradigmas: Do Uso à Ocupação

A tabela abaixo sintetiza a mudança de visão proposta pelo Observatório para a gestão de cada Fragmento Espacial:

Dimensão

Zoneamento Funcionalista (Tradicional)

Ordenamento de Ocupação (PO²T)

Objeto de Controle

A atividade (Uso) e índices quantitativos

A forma física (Ocupação) e tipologia

Temporalidade

Foco no curto prazo (planejamento da atividade)

Foco no longo prazo (permanência da forma)

Unidade Básica

A Zona Funcional

O Lote e o Tecido Urbano

Flexibilidade

Baixa (exige alteração de lei para novo uso)

Alta (neutralidade funcional do edifício)

Visão da Cidade

Máquina de funções segregadas

Palimpsesto de formas adaptáveis

Os dados da tabela acima nos fornecem uma análise comparativa clara e concisa, destacando uma tendência de mudança de paradigma no planejamento urbano, saindo do modelo funcionalista tradicional em direção a uma abordagem baseada no Projeto de Ordenamento e Ocupação Territorial (PO²T). A principal tendência ou padrão é a passagem de um planejamento focado na atividade (uso) e no curto prazo para um focado na forma (ocupação) e no longo prazo.


Abaixo estão as três principais tendências e padrões observados:


1. Mudança de Foco: Da Atividade (Uso) para a Forma (Ocupação)

O padrão mais evidente é a substituição do principal objeto de controle do planejamento, o que implica uma diferença fundamental na maneira como a cidade é concebida e regulada.

  • Zoneamento Tradicional: O foco principal do controle é a atividade (Uso) e índices quantitativos, visando segregar funções (residencial, comercial, industrial, etc.).

  • Ordenamento de Ocupação (PO²T): O foco principal é a forma física (Ocupação) e a tipologia, regulando a maneira como o edifício se insere no lote e no tecido urbano, permitindo maior neutralidade funcional.

  • Unidade Básica: O controle passa de uma unidade abstrata e ampla (A Zona Funcional) para unidades mais concretas e menores (O Lote e o Tecido Urbano).


2. Tendência à Maior Flexibilidade e Visão de Longo Prazo

A abordagem PO²T demonstra uma tendência a criar estruturas urbanas mais resilientes e duráveis, separando a regulação da forma da regulação do uso.

  • Temporalidade: Há uma mudança do foco no curto prazo (planejamento da atividade, que muda frequentemente) para o foco no longo prazo (permanência da forma, que é mais estável).

  • Flexibilidade: O planejamento se torna "Alta (neutralidade funcional do edifício)" em contraste com a "Baixa" flexibilidade do zoneamento tradicional (que exige alteração de lei para novo uso). A forma adaptável permite que os usos mudem sem que a legislação urbana precise ser reescrita.


3. Transformação da Visão da Cidade: De Máquina para Palimpsesto

A visão da cidade evolui de uma perspectiva mecanicista e segregacionista para uma orgânica e adaptável.

  • Zoneamento Tradicional: A cidade é vista como uma "Máquina de funções segregadas", onde cada peça (zona) tem um único propósito definido e isolado.

Ordenamento de Ocupação (PO²T): A cidade é percebida como um "Palimpsesto de formas adaptáveis". Um palimpsesto é um manuscrito onde o texto antigo foi raspado para dar lugar a um novo, mas ainda é visível, sugerindo que a cidade é uma sobreposição histórica de formas que se adaptam a novos usos ao longo do tempo.


3. Fundamentação Teórica: O Processo Tipológico e a Sintaxe Espacial

A base teórica do PO²T advém da Escola Italiana de Morfologia Urbana, que introduziu o conceito de "processo tipológico". O edifício não é visto como um objeto isolado, mas como um "tipo" que evolui historicamente.

Complementarmente, a Sintaxe Espacial demonstra que a configuração das vias é o principal indutor do movimento natural de pessoas. Áreas com alta integração na malha urbana atraem naturalmente usos comerciais, sem a necessidade de imposições burocráticas de zoneamento.


4. O "Nó da Terra" e o Térreo Ativo

O termo "Nó da Terra" representa a interface crítica onde o volume privado toca o solo público. A substituição de "Uso" por "Ocupação" é uma estratégia para desatar esse nó histórico, exigindo que o edifício cumpra sua função social através de sua inserção física.

  • Fachada Ativa: O PO²T resgata a tradição do térreo ativo como norma de ocupação, garantindo "olhos na rua" e segurança passiva através de transparência e acessos frequentes.

  • Land Readjustment: A eficácia desta ocupação é viabilizada pela Reconfiguração Fundiária, permitindo a modelagem de projetos que superem a fragmentação da propriedade privada.


Conclusão: O Legado Urbano pela Estabilidade da Forma

A vitalidade urbana depende da estabilidade de uma forma física que qualifique o espaço público e da liberdade de uso que permita a adaptação econômica ao longo do tempo. Ao priorizar a ocupação baseada na permanência das tipologias, o PO²T protege o Legado Urbano para as gerações futuras, permitindo que a cidade funcione como um palimpsesto onde a vida pode florescer em sua complexidade.


Aprofunde seu Conhecimento

Para ler o ensaio crítico completo e entender como aplicamos a Cadeia Cognitiva do Projeto para transformar o território, acesse o link abaixo.



Fragmentos – Observatório Analítico de Intervenções Territoriais © 2026

Arq. Orlando Ribeiro, Prof. Dr. (DEAAU / UTFPR). Este portal é o repositório oficial de difusão do Grupo de Pesquisa "Novas tecnologias aplicadas à Arquitetura e Urbanismo", certificado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Projeto de Pesquisa: "Matriz de Intervenção Territorial: Estudos de Modelagem de Projetos de Ordenamento e Ocupação Territorial (PO²T) com Reconfiguração Fundiária (Land Readjustment)", registrado na UTFPR sob o nº 3533. Linha de Pesquisa: Modelagem de Intervenção Territorial e Reconfiguração Fundiária (Land Readjustment). Eixo Metodológico: Sistematização da MI²T para proposição de PO²T em Fragmentos Espaciais, visando a eficiência técnica e a governança territorial. Espelho do Grupo (CNPq): dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/7365735134120920. 

Conteúdo licenciado sob CC BY-NC 4.0 Internacional (Atribuição-NãoComercial).


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Arq. Orlando Ribeiro, Prof. Dr.

Arquiteto e Urbanista com doutorado em Planejamento Urbano e Regional (UFRGS). Especialista em Land Readjustment (Reconfiguração Fundiária), Inteligência Territorial e Instrumentos Urbanísticos. Coordenador do Fragmentos - Observatório Analítico de Intervenções Territoriais e docente com Dedicação Exclusiva no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UTFPR.

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Arq. Orlando Ribeiro, Prof. Dr. (DEAAU / UTFPR) & Arq. Rafaela Antunes Fortunato, Profª. Drª. (DEAAU / UTFPR). Este portal é o repositório oficial de difusão do Grupo de Pesquisa "Novas tecnologias aplicadas à Arquitetura e Urbanismo", certificado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Projeto de Pesquisa: "Matriz de Intervenção Territorial: Estudos de Modelagem de Projetos de Ordenamento e Ocupação Territorial (PO²T) com Reconfiguração Fundiária (Land Readjustment)", registrado na UTFPR sob o nº 3533. Linha de Pesquisa: Modelagem de Intervenção Territorial e Reconfiguração Fundiária (Land Readjustment). Eixo Metodológico: Sistematização da MI²T para proposição de PO²T em Fragmentos Espaciais, visando a eficiência técnica e a governança territorial. Espelho do Grupo (CNPq): dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/7365735134120920.

 

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